Capítulo 1



Mesquita é uma cidade que está em constante evolução; emancipada de Nova Iguaçu em 25 de Setembro de 1999, tinha no ano 2000 cerca de cento e oitenta e cinco mil habitantes divididos em 17 bairros; não é um local com muitos relatos do tipo “lendas urbanas”, porém os poucos que existem são extremamente intrigantes; como o dos três garotos que juravam ter visto uma bola de fogo atravessando a rua na qual moravam, voando por sobre as casas. E dos outros jovens que dizem ter sido atacados por uma criatura presa dentro da casa de um deles em uma pequena vila na rua Barão de Saluce, próximo à rua Mercúrio. Experiências desse tipo não são facilmente ouvidas, e nunca se acha uma explicação por mais absurda que ela seja para os poucos relatos que se escuta.
A prefeitura ainda estava em construção, muitas obras estavam sendo feitas por todo o território da cidade, as pessoas tocavam suas vidas sem saber do perigo que rondava todas elas, sorrateiro como uma serpente, pelas ruas.
Em todos os cantos da cidade, em cada esquina, em cada bar é possível ver pessoas trocando idéias, vez por outra acontecem festas de ruas e paróquias, ainda que com uma freqüência cada vez menor, que reúnem um grande número de pessoas em diversas datas comemorativas; e durante todo o ano acontecia aos domingos, próximo à praça central de Mesquita a festa chamada de “Passarela do Rock”, uma espécie de festa que reunia roqueiros de todas as tribos e estilos, não só desse município como também de diversas partes do Estado para curtir, beber, azarar, ouvir muito “Rock and Roll”, entre outras coisas. Essa festa juntamente com a praça; são, digamos, o ponto de partida para os acontecimentos sombrios que se abateram sobre a cidade com muito mais força.
Nos dias úteis alguns locais próximos dessa mesma praça e seus arredores servem como ponto de ônibus de muitas empresas que ligam o município de Mesquita com o resto do Rio de Janeiro, como por exemplo, as linhas que ligam Mesquita à Pavuna, onde se pode fazer a integração com o metrô e em pouco tempo estar no Maracanã ou em Copacabana. A linha que liga Mesquita à Praça Mauá e ainda a linha que faz conexão com o centro da cidade, Praça quinze e praça onze. Há também muito próximo da praça, a estação ferroviária da Supervia cuja linha faz o trajeto ligando o município de Japeri até a estação Central do Brasil no centro da cidade e que juntamente com as outras duas estações dos bairros satélites ao centro, Presidente Juscelino e Édson Passos, formam as três estações que servem ao município.
Antes da emancipação da cidade que pertencia ao município vivinho, chamado Nova Iguaçu, a praça do centro chamava-se Manuel Duarte, mas depois das reformas propostas e realizadas pela nova prefeitura como tantas outras coisas recebeu uma nova cara, mais atraente aos visitantes e muito mais aconchegante aos moradores locais; foram colocados vários brinquedos infantis distribuídos de forma que parte do espaço se parecesse com um playground, bancos e lixeiras para coleta seletiva também foram espalhada por toda a extensão do local e a banca de jornais central de Mesquita foi totalmente reformulada a fim de melhor atender os clientes; tabuleiros de xadrez e dama foram dispostos junto a quiosques para que os aposentados que sempre estão por ali possam aproveitar um pouco mais as manhãs e as tardes em gostosos jogos com os amigos. Somente o antigo chafariz não recebeu cara nova, porém foi devidamente restaurado respeitando seu antigo molde, mas ainda sim combinando com todo o resto das inovações; a praça passou a se chamar Secretária Elizabeth e tornou-se ainda mais um símbolo desse novo município.
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As primeiras mortes aconteceram muito esporadicamente sem nenhuma ligação aparente, mas à medida que elas não paravam de ocorrer, começaram a chamar atenção. Principalmente porque foram acompanhadas por uma onda de desaparecimentos sem explicação, alguns que até hoje são um mistério, pessoas que simplesmente pareceram ser tragadas pela terra sem deixar vestígios. Em sua maioria mulheres.
As autoridades policiais da cidade se viam diante de uma situação até certo ponto inédita e começaram a intensificar o patrulhamento a fim de consegui evitar futuros ataques e outros desaparecimentos; a sociedade como um todo nunca ficou sabendo por completo do que aconteceu, tampouco quem cometeu esses assassinatos e muito menos o que os causou. Por um curto período de tempo após realizar algumas prisões, os homicídios paravam e os desaparecimentos diminuíam, mas eram retomados semanas depois; pelo menos uma pessoa era atacada por semana, e sempre do mesmo jeito; elas eram encontradas com um semblante de horror em suas faces onde quer que fossem achadas; como se a última coisa que viram fosse algo tão terrível que foi capaz de lhes roubar a vida, mas nunca havia qualquer sinal de violência. Dentre as que foram encontradas duas foram demasiado estranhas para as pessoas que as viram no raiar do outro dia.
A primeira, um senhor de sessenta anos encontrado na escadaria da igreja de Nossa Senhora das Graças, padroeira da cidade; ele estava estirado nos degraus e segurava uma chave em uma das mãos, seu rosto transmitia o característico horror tão marcante nos últimos corpos encontrados, o que tornava a cena ainda mais bizarra. Seu nome era José Firmino, coveiro do cemitério público de Mesquita fazia trinta e nove anos, e segundo uma investigação pessoal de dois policiais intrigados com o caso a pedido da família, ele não tinha inimigos que pudessem querer a sua morte, não fumava, não bebia, não jogava e era muito respeitado na Av. São Paulo, rua onde morava há trinta anos.
A segunda fora ainda mais terrível que a anterior, um corpo encontrado no cemitério sem nenhum documento, descalço, vestindo unicamente uma calça jeans muito surrada e sem bolsos, um pé trazia um tênis e outro jazia descalço; com seu peito dilacerado como se tivesse sido atacado por algum animal de grande porte, como um grande cão ou algo ainda maior. A cena era medonha e havia vestígios de combate corporal por toda parte; fosse quem fosse aquele homem tinha tentado resistir com todas as suas forças, mas não conseguiu. Mais ou menos a dez metros do corpo estava sobre um dos túmulos uma arma, um revólver calibre 38 contendo em seu tambor duas balas. De prata.