Capítulo 2



Manhã de sábado e a viatura da polícia ainda estava vasculhando algumas ruas do município, tentando garantir um pouco de segurança aos moradores; era fim de turno e dentro dela dois dos policiais que achavam aqueles acontecimentos realmente estranhos, e incansáveis patrulhavam tentando dar um pouco mais de sensação de segurança aos moradores locais enquanto a polícia civil se ocupava de tentar achar o criminoso ou criminosos por trás dos ataques e buscava a solução desse enigma medonho.
Ao volante da viatura estava o cabo PM Marco Antônio de Araújo, e ao seu lado o segundo Sargento PM Fernando de Alencar Peixoto, ambos moradores do próprio município de Mesquita e por isso estavam tão preocupados com a onda de crimes que vinha ganhando força nos últimos meses; se a população soubesse dos assassinatos e dos requintes de crueldade utilizados nesses atos, logo o pânico tomaria conta das pessoas instalando-se definitivamente na cidade, e isso seria muito ruim para as intenções das polícias civil e militar de capturar o culpado, portanto o quanto antes eles conseguissem levar o meliante á justiça, melhor.
_ Chefe._ Chamou o cabo.
_O quê?
_ Com que tipo de maníaco estamos procurando desta vez? Quem mata pessoas dessa forma?
_ Não sei cara, mas acho bom ele rezar pra não encontrar comigo.
Ambos os policiais riram por uns segundos para descontrair e disfarçar a terrível tensão na qual estavam mergulhados já havia algumas semanas.
Marco era relativamente novato, possuía apenas vinte e quatro anos, trabalhava no vigésimo batalhão de policia militar de Mesquita, na área burocrática (papeladas), mas como todos os homens já estavam envolvidos em alguma outra operação, sobrou para ele assessorar o seu superior hierárquico e amigo pessoal nessas rondas pela cidade. Já Fernando possuía muita experiência e habilidade, aos trinta e quatro anos de idade, participou de muitas ações de alto risco, fora muito bem treinado e sempre exibia com orgulho o fato de ser um dos melhores atiradores do grupamento, já havia sido condecorado por bravura uma vez, por uma ação no centro do Rio de Janeiro, quando desconfiou de dois homens que entraram no mesmo ônibus no qual estava. Fernando sentara-se no banco atrás do trocador e observara com qual mão os dois homens suspeitos retirariam do bolso o dinheiro da passagem; ambos fizeram com a mão direita e seguiram para frente, Fernando já tinha visto um deles, sabia que se tratava de um homem procurado, mas não sabia ao certo de onde conhecia a feição do outro; ele se levantou sacando de forma discreta a sua arma, não podia arriscar que aqueles homens anunciassem um assalto no ônibus e o identificassem como policial. Teve de agir.
Passando pelo trocador pediu que este buscasse abrigo; os homens ao chegarem no meio do veículo sacaram suas pistolas, com a mão direita, e anunciaram o assalto. Tudo aconteceu muito rápido, um dos assaltantes percebeu Fernando de pé no corredor a poucos metros deles e virou-se; aí dois tiros foram disparados e as armas de ambos os criminosos caíram no assoalho do ônibus; o policial havia disparado duas vezes com precisão assombrosa ferindo ambos em seus braços, bem na junção com o ombro, inutilizando a mão boa de cada um dos bandidos que não conseguiram segurar as armas, frustrando assim o que se tornou uma tentativa de assalto. Houve grande repercussão desse fato nas mídias e junto à sociedade carioca, mas passado um tempo caiu no esquecimento popular, exatamente como tudo que ocorre no país. Ele nunca tinha admitido para outras pessoas, mas fora muita sorte.
Para Fernando esse maníaco de Mesquita não duraria muito, mas queria prendê-lo o quanto antes.
_ Siga para o cemitério Marco. _ disse o sargento num estalo.
_Por quê?
_Vamos dar uma passada lá antes de voltar para o batalhão; só para ver se está tudo em ordem. Estou pensando numa coisa.
_Você está achando que o cara vai estar por lá_ o motorista disse brincando.
_Quem sabe._Provocou.
_ Certo.
Enquanto dirigia a viatura, Marco continuava pensando nos corpos e no modo como foram eliminados. Chegando ao cemitério municipal do centro, no lado leste da cidade, do outro lado da linha do trem, o cabo estacionou o carro bem em frente ao portão e eles saíram do veículo, sendo recebidos por outro funcionário do local que estava junto às capelas junto ao portão.
_ Bom dia senhores. Vocês são os policiais que estão encarregados de investigar essas mortes horripilantes? _ perguntou o homem com uniforme azul e exibindo um pouco de desconfiança mesmo vendo as fardas dos policiais.
Fernando se adiantou estendendo a mão:
_ Não. A polícia civil está fazendo isso, nós estamos apenas patrulhando. Eu sou o sargento Alencar e este é o cabo Araújo; e o senhor é?
_ Ambrósio _ completou o funcionário finalmente apertando a mão do sargento, e continuou __ Que bom que resolveram voltar.
_ Por quê? _ perguntou Marco colocando os óculos escuros recém tirados do bolso.
_ Porque eu achei algo que talvez os interesse.
Ambrosio fez sinal para que os policiais o seguissem e se colocou a caminhar por entre as lápides, túmulos, sepulturas e os corredores formados por elas, em poucos minutos eles passaram pelo lugar onde o corpo com o peito dilacerado tinha sido encontrado, e do lado oposto ao de onde foi achada a arma das balas de prata, o coveiro parou e apontou para o chão junto a uma sepultura, lá estava uma pequena caderneta vermelha. Marco se abaixou com cuidado e recolheu o pequeno livro, ao abri-lo para examinar, viu, primeiro, a foto do homem achado a poucos metros dali.
_ É a foto do último que nós encontramos. _ Ele olhou para o coveiro e depois para o sargento. Que perguntou:
_ É só isso que tem aí?
_ Não, tem também o nome do sujeito; Pe. Giovanne Poggimartro.
Eles não precisavam analisar muito o documento para verificar que se tratava de um passaporte, porém um tanto diferente, e a julgar pela inscrição, “Unione Europea” e “Repubblica Italiana” em sua capa; logo chegaram à constatação de que se tratava de um passaporte Italiano.
_ Parece que o cara era um turista italiano._ anunciou Marco como se tivesse descoberto a pólvora.
_ Isso fica entre nós por enquanto._ declarou o sargento_ Muito obrigado senhor Ambrósio, isso será de grande ajuda, mas por hora devemos visitar outros lugares e ver se achamos pistas que nos levem a esse matador.
Fernando estava decidido a prosseguir tentando encontrar o responsável pelos ataques antes das autoridades.
Ao virarem-se na direção da saída, ambos foram interrompidos pelo novo chamado do coveiro:
_ Vocês não poderiam ficar só mais um minuto, ainda tenho algo a dizer.
Eles se voltaram com a feição interrogadora querendo saber por que ele estava fazendo aquele jogo, mas ficaram espantados ao ver que o pobre homem agora estava tremendo muito como se fosse ter um ataque a qualquer segundo.
_ Senhor Ambrósio, o senhor está bem? _ Fernando correu para prestar socorro ao trêmulo senhor._ Marco, vá chamar uma ambulância par...
_ NÃO! _ Gritou Ambrósio, com a voz irrompendo pela garganta_ eu estou bem, por favor, apenas me escutem, é importante.
Marco parou no meio do movimento de iniciar sua corrida e ouviu o que ele tinha a disser.
_ Sobre o que você quer falar? _ Perguntou Fernando ajudando o coveiro a se sentar em um túmulo.
Aos poucos ele foi se recuperando, tremendo menos e começou a falar:
_ É sobre o “Zé”.
O sargento se perguntou quem seria esse Zé, e se recordou do outro funcionário do cemitério encontrado nas escadarias da principal igreja católica de Mesquita.
Ambrósio recomeçou:
_ Naquela noite estávamos aqui, o Zé e eu, tínhamos muito trabalho a fazer iríamos colocar um caixão dentro daquele mausoléu._ Ambrosio se deteve por um instante e apontou para uma pequena capela com uma cruz sobre ela, um pouco afastada de onde estavam, com uma grande porta formada por grades grossas e com uma enorme corrente sendo presa por um cadeado especialmente ornamentado _ Vêem aquele mausoléu _ E continuou _ Era por volta de seis e meia da tarde e nos distraímos falando de futebol enquanto fazíamos o trabalho, o Zé gostava muito de futebol, era flamenguista fanático e estava reclamando da atual fase que o seu time do coração vinha enfrentando. Tínhamos esperado durante todo o dia, mas ninguém veio chorar aquela pessoa dentro do caixão que, diga-se de passagem, era completamente fechado, de um tipo que não é comum, parecia mais com um sarcófago e também não era de madeira, mas sim de metal. Sem percebermos o Sol já tinha se escondido, era algo entre sete e sete e meia; colocamos o caixão, muito pesado, no lugar reservado a ele e ao sairmos para fechar o portão gradeado com a corrente e o cadeado, Zé virou-se assustado e o viu primeiro, depois eu também me virei e lá estava ele; aquele homem estranho parado ali no escuro olhando para nós, com aquelas roupas pretas estranhas que a julgar pelo corte deveriam ser muito caras.
_ Espere só um momento_ Interrompeu Marco_ Por que você não relatou isso à polícia da primeira vez que estiveram aqui?
_ Por incrível que pareça, eu não me lembrava de nada disso._ disse Ambrósio coçando a testa sinceramente confuso.
_ Como assim não se lembrava? Mais que história é essa de não se lembrav...
_Pega leve Marco, deixa o homem terminar a história._ o sargento interrompeu seu parceiro bruscamente.
Ambrósio respirou fundo e recomeçou:
_ Aquele era o homem mais estranho que eu já vi na vida, e ele permanecia ali parado, parecia uma estátua trajando um daqueles ternos negros de gente rica, ele nos encarava mexendo os olhos, mas não a cabeça; lembro-me de sentir uma coisa ruim por um instante no qual meus olhos se cruzaram com os dele, depois senti um tremendo “frio na espinha” e um arrepio que atingiu cada fio de cabelo do meu corpo; aqueles olhos eram algo beirando o sobrenatural, e o jeito dele era muito esquisito, se ele não estivesse parado de pé bem na minha frente eu diria que já estava morto. Só então percebi o mais tenebroso dos detalhes, o detalhe que fez com que eu, Jonas Ambrósio, homem feito com cinqüenta e nove anos quase desmaiasse, tamanho foi o meu medo.
Nesse momento da narração, os policiais viram as lágrimas caindo dos olhos do interlocutor.
_ Continue, que detalhe é esse, o que era._ Marco perguntava desesperado, queria saber do que se tratava.
_ A pele. A pele dele era branca como uma pedra de mármore, eu nunca vi ninguém tão pálido desse modo, nem mesmo uma pessoa muito doente ficaria daquele jeito; naquele momento comecei a orar em pensamento, ele ergueu a sobrancelha do olho direito, como se soubesse o que eu estava fazendo; depois olhou para o Zé e veio em nossa direção, lentamente. Já viram o jeito que a serpente domina com o olhar um sapo antes de matá-lo, era algo assim, feito pelo medo, fora do comum; ele passou por nós e foi até o portão gradeado do mausoléu; eu não tive coragem para me virar, nem minhas pernas iam me obedecer se eu tentasse, ouvi o barulho do cadeado sendo fechado e depois ele passou por nós andando tranquilamente na direção da saída, sem olhar para trás até sumir do nosso campo visual. Quando ele se foi, ficamos ali parados ainda uns dez minutos como se estivéssemos enfeitiçados; e quando finalmente assumi o controle do meu corpo e minhas pernas, sai correndo assim como o Zé que no dia seguinte foi procurar o padre Bruno lá na igreja central.
_ Escute Ambrósio, essa e uma história e tanto _ declarou Fernando sacando uma caneta do bolso da camisa, e procurando nos outros até encontrar um pedaço de papel; anotou nesse pedaço de papel o seus telefones de sua casa e de seu celular.
_ Tome senhor Ambrósio, são meus telefones de contato; se por acaso esse homem voltar a encontrá-lo, pode nos ligar. Quero resolver essa situação antes que outros comecem a ter essas visões. Vamos Marco.
Marco por sua vez pediu um segundo ao sargento e se voltou para o coveiro.
_ O senhor disse que orou em pensamento; por acaso o senhor frequenta as missas de domingo lá na igreja?
_ Não as missas do padre Bruno, não sou católico, mas frequento uma pequena igreja evangélica próxima da minha casa.
_ E quanto ao Sr. José Firmino, ele era católico? Ou ia a igreja com o senhor? De quem ele era devoto?
Uma nova lágrima caiu do olho do velho coveiro e percorreu todo o seu rosto até chegar ao queixo, e tanto Fernando quanto Marco percebem a tristeza do homem ao dizer que seu companheiro agora morto se dizia ateu.
Marco ficou zonzo por alguns segundos ao ouvir tal afirmação, o chão fugiu momentaneamente de seus pés e ele teve de se escorar também em uma lápide para não cair, algo estava errado. Enquanto esperava para se recuperar daquela sensação passageira ele tentou dizer alguma frase que encorajassem o pobre coveiro a seguir com sua vida, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Fernando o agarrou pelo braço e puxou, agradecendo a Ambrósio pela colaboração; eles saíram do cemitério e entraram na viatura, ficando parados dentro do carro por um tempo ponderando o que acabaram de ouvir sem trocar palavra alguma. O velho Ambrósio não podia estar mentindo sobre tudo aquilo, não demonstrando os sentimentos com a intensidade que demonstrara.
Algum tempo depois Fernando quebrou o silêncio
_ Ambrósio viu um homem com o rosto pálido, é provável que esse seja o suspeito que estão falando por aí. O que você acha?
_ Acho que devemos ir a paróquia falar com esse tal padre Bruno.
_ Claro, liga o carro e segue para a igreja.
A viatura deixou o cemitério em direção a igreja católica do centro de Mesquita, mas nem os policiais nem o coveiro perceberam que sua conversa tinha sido vista e ouvida por uma quarta pessoa escondida entre os túmulos.