Capítulo 4



Fernando parou seu carro; um Fiat Tempra 2.0 turbo, preto, em frente à sua casa. Sua esposa, Sarah estava conversando com dona Dirce; uma vizinha. Ao sair do carro Fernando trazia na mão uma mochila na qual estava a arma, as balas de prata e o recipiente com a essência de alho concentrada; passando por sua esposa ele a beijou e cumprimentou a vizinha que retribuiu cordialmente logo em seguida.
Já dentro de casa correu em direção ao quarto da pequena Paula que brincava com suas bonecas, mas largou tudo quando viu que o pai havia chegado.
_Papai!_disse a criança transbordando de alegria.
Ambos brincaram juntos por um tempo, depois Sarah apareceu na porta e ficou observando-os. Fernando pediu licença à filha e saiu para tomar um banho e trocar de roupas, afinal tinha prometido levá-la para um passeio e ela não ficaria satisfeita com menos do que isso. Enquanto tomava seu banho ele conversava com a esposa, separados apenas pelo boxe de vidros escuros, sobre vários assuntos, domésticos ou não e dentre eles seus últimos trabalhos, mas não disse uma palavra sequer sobre suas visitas ao cemitério ou na igreja e nem deixou que ela visse a arma nem as balas de prata que escondera no criado mudo junto à cama onde dormiam; Sarah era muito respeitadora; ele costumava dizer que ela era a mulher perfeita, estavam juntos há seis anos e ela nunca mexera em suas coisas sem sua permissão e visse-versa tampouco sua filha mexeria, Sarah educava a menina de forma sublime, Paula era uma garotinha esperta, mas muito obediente. Portanto Fernando sabia que não tinha nenhum problema em deixar os itens naquele local.
Quando terminou de se trocar, foi até o quintal dos fundos a fim de alimentar com ração ao cão que possuíam; um Pit-Bull cujo nome era Pit, muito querido por sua pequena filha, embora ele não a deixasse chegar muito próximo ao animal. Fernando não percebia mais tomava medidas muito perigosas ao manter armas de fogo dentro de casa e possuir um cão tão grande convivendo sob o mesmo teto que sua pequena filha, ele não fazia por mal, mas não conseguia enxergar o perigo que estava expondo sua família mesmo amando-a. Se somente por um segundo ele conseguisse vislumbrar o real perigo que tudo aquilo representava, certamente tomaria outras medidas.
À tarde com a família foi ainda melhor do que tinha planejado; Fernando e Sarah levaram Paula para a praça e aproveitaram para namorar um pouco enquanto a menina se divertia correndo e brincando no parquinho infantil com outras crianças; depois foram comer uma pizza; o que era um programa simples, mas carregado de sentimento e isso os unia ainda mais como família. Pelo fato de Fernando ser um policial e estar já há quase dois anos sem férias eles não podiam planejar grandes viagens nos fins de semana, pois na maioria deles, o chefe da casa estava de serviço, mas assim que suas férias saíssem Sarah já teria planejado uma viagem inesquecível para Búzios, Paraty ou Angra dos Reis onde ficariam por uns dias numa peculiar e aconchegante pousada para reciclar as idéias, mente, alma e corpo. Fernando não era um homem religioso, mas sabia que tinha sido privilegiado por se casar com uma mulher que sabia planejar as coisas, o futuro da família, e com isso não se preocupava, ela era muito inteligente e dedicada tanto com ele como para com a filha e estava se formando como Psicóloga.
Ao terminarem a pizza, voltaram para a praça e Fernando ainda passou mais um tempo mostrando à filha alguns passarinhos que voavam quando ela se aproximava correndo ruidosamente e com os braços para o alto como se os pudesse pegar em pleno vôo. Ele gostava de valorizar o máximo possível o tempo que passava com seus familiares, pois já que não eram muitos, então que pelo menos fossem de qualidade, talvez por isso não estivesse sofrendo os efeitos da estafante vida policial como havia acontecido com alguns de seus colegas que chegaram até mesmo a perder totalmente o controle.
Quando o Sol começou a se pôr atrás dos montes eles voltaram para casa; novamente parando o carro à frente de sua propriedade; Fernando observou de dentro do veículo sua esposa e filha entrarem correndo e sorrindo, percorrendo o mosaico de pedra que constituía um caminho do portão até a porta da frente; e as palavras do padre Bruno voltaram a sua mente:
“Você é jovem, tem família, tem muito mais a perder”.
O céu avermelhado do entardecer começava a tomar uma tonalidade escura, a noite não tardaria a chegar; finalmente ele saiu do carro entrou em casa, jogou as chaves sobre uma das prateleiras da estante da sala e sentando-se no sofá pegou o telefone, discou um número e esperou que atendessem do outro lado.
Após dois toques:
_ Alô.
_ Alô marco, aqui é o Fernando.
_ Beleza; o que houve?
_ Escuta, não sai de casa hoje à noite; esse negócio todo que nós andamos apurando me deixou meio desconfiado, até nós ou qualquer outro prenderem esse cara ou essa onda passar fica esperto. Está certo?
_ Não esquenta cara, eu estava mesmo pensando em ficar em casa lendo um pouco.
_ Ótimo nos vemos no campo amanhã?
_ Claro. Até lá.
Fernando desligou o telefone e o restante da noite foi uma verdadeira beleza, eles jantaram, depois ele assistiu televisão, jornal, novela; embora não gostasse, mas sua esposa vez por outra via alguns capítulos e ele a acompanhou, Zorra Total, e um pedaço do super cine que exibiu o filme vingança em chamas. Finalmente ele foi para o quarto e para completar Sarah estava deitada de modo casual, mas ainda sim de maneira provocante. Os últimos acontecimentos tinham feito com que ele se esquecesse o quanto amava e desejava aquela mulher; Fernando deitou-se junto dela que o acolheu em seus braços e antes de dormir fariam amor sem saber que o terror estava muito próximo.