Capítulo 5



De repente durante a madrugada ambos foram acordados com os latidos furiosos de Pit no quintal, o cão latia desesperadamente, corria de um lado para o outro como se estivesse avançando em alguém, rosnava muito e voltava a latir; do quarto eles ouviram quando o cachorro atacou e soltou um ganido extremamente alto parando com todo o barulho em seguida, como se o cão tivesse sido abatido por uma forte pancada, que eles não tinham certeza de se tinham realmente ouvido.
O silêncio estava deixando Sarah em pânico.
_ O que esta acontecendo lá fora Fernando? Por que o Pit parou de latir desse jeito?
Fernando sentiu o coração batendo acelerado e uma película de suor formou-se rapidamente em sua testa, pensou em acender a luz, mas teve medo do que a claridade poderia revelar dentro do próprio quarto; portanto, relutantemente acendeu o abajur que estava sobre o criado mudo ao lado da cama e Sarah fez o mesmo do lado dela. Novamente ambos foram surpreendidos pelo enorme barulho de vidro se estilhaçando que ecoou por toda a casa; nessa hora Fernando abriu a gaveta do criado mudo e retirou a arma, as balas de prata e a essência de alho, colocou seis balas no tambor e levantou-se empunhando a arma firmemente; ouviu os passos vindo na direção de seu quarto pelo corredor e quando a porta se abriu de uma só vez, por muito pouco ele não atirou na própria filha, mas se deteve no último segundo.
A menina correndo e chorando pulou na cama abraçando a mãe. Estava apavorada.
_ O que foi querida?_ perguntou Sarah_ O que aconteceu?
A menina soluçava muito e quase se engasgava tentando falar, mas esforçando-se conseguiu:
_ Ele entrou pelo meu quarto mamãe._ as palavras da doce Paula fizeram o coração de Fernando gelar.
_Quem? Quem entrou pelo seu quarto filha? _ ele perguntou com a voz entrecortada.
_ O “Bicho Papão”.
_ Oh! Meu Deus! _ exclamou Sarah agora também chorando e abraçando fortemente a sua pequena filha. _ O que significa isso?
Sarah não sabia ao certo o que aquilo significava, mas tinha certeza de que havia um invasor na casa e isso por si só já era o suficiente para entrar em pânico.
Fernando passou a mão no rosto retirando o suor que cobria sua testa e entregou o pote de alho concentrado à esposa.
_ Para que isso?
_ Beba._ Ele não sabia se era o caso, mas quando percebeu já estava dando o pote para a esposa.
_ O quê? Por quê?
_ Sarah! _ disse ele num tom alterado de voz. _ Bebe isso e dá um pouco pra Paula _ abaixou novamente a voz e continuou _ Por favor, não discuta, só beba.
Sarah bebeu o líquido sem nem fazer careta e depois foi a vez da menina Paula que repetiu o gesto.
_ Agora escute bem_ disse a ela _ Segura essa arma e atire em qualquer pessoa que entrar pela porta. Você me entendeu bem? Qualquer pessoa.
Aquela família nunca teve problemas com invasões, aliás, ninguém na vizinhança tinha qualquer tipo de problemas como aquele. Fernando pensava que poderia ser alguém tentando dar uma mensagem por alguma coisa que tenha feito em ocasião de sua profissão, mas logo abandonou essa idéia; na verdade não havia motivo para tal invasão.
Sarah pegou a arma, tremendo muito, sem saber que dentro do tambor estavam seis balas de prata. E Fernando remexeu debaixo da cama até encontrar sua mochila e dela retirou outro revolver que já possuía anteriormente. Depois olhou para o relógio de pulso verificando que já eram quatro e vinte da manhã de domingo, tentou ouvir algo por sobre o choro da mulher e da filha e realmente conseguiu; quem quer que tivesse entrado em sua casa estava revirando todas as coisas nos outros cômodos; ele chegou a ouvir objetos sendo destruídos de maneira bastante ruidosa, sendo jogados no chão e nas paredes. Finalmente ele tomou coragem e saiu do quarto mesmo com os apelos de Sarah para que ficasse.
_Liga para a polícia._Sarah conseguiu dizer.
_Tem algo errado lá fora._ Fernando ouvia claramente as coisas sendo destruídas, mas não ouvia vozes; e se alguém tinha invadido a sua casa de uma forma tão ofensiva, por que faria questão de se manter em completo silêncio.
Fernando saiu do quarto.
Ao botar os pés no corredor e fechar a porta do quarto atrás de si, os barulhos pararam imediatamente. Ele andou devagar com a arma firmemente apontada para o nada e a escuridão à sua frente, respirando bem fundo para não perder o controle de suas faculdades mentais; e avançando no meio das sombras, passou pelo portal que separava o corredor da sala, e mesmo no mais absoluto escuro ele podia ver a televisão jogada ao chão, a estante tombada e o sofá destruído. Ele esgueirou-se pela parede chegando próximo ao interruptor de luz, e mesmo com aquele medo de que a claridade revelasse o “Bicho Papão” como disse a sua filha ele tentou acendê-la, mas não funcionou; a luz não acendeu, estava quebrada.
A sala permaneceu escura de modo que Fernando só conseguia ver a silhueta dos móveis e objetos jogados por toda parte, ele tentou ouvir mais algum barulho e ficou tão compenetrado nessa tarefa que não percebeu a criatura engatinhando lentamente pelo teto, sobre sua cabeça. De repente escutou uma respiração muito próxima de si e ao olhar para cima visualizou um monstro agarrado à parede como se não houvesse gravidade dentro de sua sala; o susto foi tão grande que Fernando disparou a esmo quatro vezes; dois tiros acertaram a criatura que caiu se debatendo, mas logo começou a se erguer novamente, o policial pulou por cima da “coisa” para chegar à cozinha o mais rápido possível; e passando pelo portal que dividia a sala; da cozinha, foi agarrado pela cintura por outra criatura e arremessado ao ar, caindo e batendo com a cabeça na quina da mesa, derrubando-a e largando a arma.
Apoiando as mãos no chão ele sentou-se junto da mesa caída, e com o coração muito acelerado viu parado perto do vão da porta por onde passara fazia pouco, um homem ou pelo menos parecia com um, embora estivesse com as roupas em trapos.
Fernando em uma rápida reação se virou procurando a arma, mas o homem ou monstro o agarrara pelo pescoço erguendo-o e arremessando-o novamente com muita violência na parede; ao cair, ele se espantou com a força que a criatura possuía e suas costas começaram a doer imediatamente, mas por sorte tinha caído perto de uma faca grande de carnes que estava espalhada juntamente com outros utensílios de cozinha por todo o piso. A princípio não imaginava se utilizar dela, mas quando ouviu o grito de sua pequena filha vindo do quarto onde a deixara com Sarah, por puro instinto e imaginando que Paula estivesse sendo vítima de atrocidades, lançou mão da faca e levantou-se partindo para cima do homem que mais parecia um zumbi; Fernando gritou pela filha ao se engalfinhar com o monstro enterrando a faca até o cabo na altura do abdômen de seu estranho oponente que pareceu nem sentir o golpe e agarrou o policial novamente pelo pescoço com tanta força que ele já estava perdendo o fôlego. Seus olhos começaram a vacilar, a vista falhou várias vezes enquanto ele forçava a faca através do abdômen abrindo caminho pela caixa torácica do monstro. Aquele bafo repulsivo já estava quase derrubando Fernando quando a faca chegou à base do pescoço do homem pútrido que emitiu uns ruídos, libertando o policial e fugindo destruiu a porta da cozinha, que era de madeira, em direção ao quintal.
Fernando atordoado caiu de joelhos e com as mão apoiadas na parede, puxava o ar para dentro dos pulmões depois soltava lentamente; confuso com o sufoco que acabara de passar ele só pensava em se deitar ali mesmo e esperar que o dia amanhecesse estava torcendo para que tudo não passasse de um terrível pesadelo, mas não teve tanta sorte assim.
Os disparos soaram vindos do quarto onde estava sua família, dois ou três, não sabia ao certo tamanha era a tonteira que estava sentindo; cambaleante colocou-se de pé sussurrando os nomes de Paula e Sarah, e quando ouviu mais um disparo, explodiu em velocidade tropeçando nas coisas espalhadas pelo chão na completa escuridão em direção ao quarto como só mesmo um pai desesperado faria.
A porta que deixara fechada estava agora escancarada e a meia luz produzida pelos abajures vazava para o corredor mergulhado em sombras. Entrando no quarto ele viu sua amada esposa totalmente fragilizada sobre a cama segurando fortemente as pernas encolhidas com os joelhos junto ao peito, ela chorava muito e tentava dizer algo sem conseguir, mas Paula não estava lá; ao perceber isso achou que fosse morrer do coração naquele instante, suas costas doíam muito por causa do tombo que levara na cozinha e havia um ferimento considerável na sua cabeça vertendo um filete de sangue; ferimento esse provocado pela pancada na quina da mesa e que era também responsável por sua tontura.
Sarah murmurava algo baixinho enquanto chorava e era visível a força que estava fazendo para que as palavras mesmo num tom tão baixo deixassem sua garganta; Fernando se aproximou o suficiente para ouvir que a esposa dizia que algo tinha levado sua filha. De repente a mulher gritou tão alto que os ouvidos do marido doeram, ela olhava fixamente para além dele, por sobre o ombro do esposo, e tudo aconteceu muito rápido.
Fernando viu refletido nos olhos dela o vulto que entrara tão rápido como o vento no quarto, como um fantasma negro; o cheiro pútrido inundou o cômodo e quando pensou em se virar foi atingido com muita violência na nuca, um golpe tão poderoso que ele fora arremessado sobre a cama perdendo parte dos sentidos instantaneamente. Por um curtíssimo período depois de tombar ainda chegou a escutar os gritos de agonia da esposa cada vez se distanciando mais até ficar no total silêncio.